Um ano após crise do metanol, investigação revela cadeia de falsificação e vítimas convivem com sequelas

  • 13/09/2026
(Foto: Reprodução)
Um ano após crise do metanol, investigações avançam, mas ainda há mortes no país por intoxicação Um ano depois da onda de intoxicações por metanol associadas a bebidas adulteradas em São Paulo, a polícia afirma ter identificado os principais envolvidos na cadeia de falsificação que provocou mortes e deixou vítimas com sequelas permanentes. Enquanto as investigações avançam, sobreviventes ainda enfrentam as consequências da contaminação e cobram punição aos responsáveis. Veja a reportagem completa no vídeo acima. 'Não enxergo mais nada' Entre os casos que marcaram o início da crise está o da designer de interiores Radharani Domingos. Ela participou do aniversário de uma amiga em um bar da Zona Oeste de São Paulo e consumiu três caipirinhas. No dia seguinte, entrou em coma. Quando foi entrevistada pelo Fantástico durante a internação, relatou ter perdido a visão. Um ano depois, convive com sequelas permanentes. Segundo ela, restaram apenas cerca de 3% da capacidade visual. "Do nariz para baixo não enxergo mais nada e do nariz para cima eu consigo enxergar um pouco de vulto e movimento", afirmou. Um ano após crise do metanol, investigação revela cadeia de falsificação e vítimas convivem com sequelas Reprodução/TV Globo Áudios revelam esquema de bebidas com metanol ligado a mortes em SP Casos continuam a ser registrados A reportagem também mostrou novos episódios registrados em 2026. Em julho deste ano, Ana Caroline morreu após consumir bebida alcoólica contaminada em São Félix do Araguaia (MT). Inicialmente, familiares associaram os sintomas a uma ressaca, mas a suspeita de intoxicação por metanol surgiu quando ela passou a relatar dificuldades para enxergar. A vítima foi transferida em uma UTI móvel para uma unidade com mais recursos, mas sofreu uma parada cardiorrespiratória durante o trajeto e morreu. Ela tinha 31 anos, era mãe de quatro filhos e havia iniciado recentemente uma faculdade de pedagogia. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde mostram que, em 2025, foram confirmados 73 casos de intoxicação por metanol associados a bebidas adulteradas, com 25 mortes. Em 2026, até meados de agosto, havia 17 casos confirmados e outros 23 em investigação. Secretarias estaduais de Saúde confirmaram sete mortes neste ano. Intoxicações por metanol: conheça o antídoto usado pelos médicos Mercado da falsificação sob investigação A crise revelou a dimensão do mercado ilegal de bebidas falsificadas. Segundo a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), o número de operações de combate à falsificação quadruplicou após os casos de metanol. A entidade afirma que a principal recomendação ao consumidor é verificar a origem do produto, observando documentação, número de lote e nota fiscal. A presidente-executiva da Abrabe, Cristiane Foja, avalia que os casos demonstraram riscos maiores do que os inicialmente imaginados. "As bebidas falsificadas podem trazer graves riscos para as pessoas, até às vezes a morte". Ela também aponta dificuldades na responsabilização criminal dos envolvidos. De acordo com a entidade, entre 2015 e 2026 foram registrados 605 procedimentos de investigação e ações relacionadas ao tema, mas apenas 16 pessoas permanecem presas. "A gente tem gargalos. Um dos primeiros gargalos que a gente observa é que a Justiça parece não acompanhar", afirmou Cristiane. Um ano após crise do metanol, investigação revela cadeia de falsificação e vítimas convivem com sequelas Reprodução/TV Globo Cegueira pós-caipirinha: mulher relata o drama da intoxicação por metanol em bar de São Paulo Como a polícia chegou aos suspeitos Em São Paulo, pelo menos seis inquéritos abertos em diferentes delegacias passaram a ser analisados em conjunto. As investigações tiveram como ponto de partida as mortes de Ricardo e Marcos, ocorridas após o consumo de vodca em um bar na Mooca, há um ano. A primeira prisão ocorreu em flagrante. Segundo a polícia, Vanessa Maria da Silva produzia bebidas falsificadas na garagem de casa utilizando materiais clandestinos. Ela permanece presa. A partir desse caso, os investigadores identificaram outros integrantes da rede. Entre eles estão Pedro Lagar, responsável pela comercialização de garrafas descartadas que eram reutilizadas na falsificação, e Gilmar Silva, apontado como fornecedor de bebidas para bares e outros estabelecimentos. De acordo com a delegada Isa Lea, o esquema funcionava como um grupo composto por familiares e pessoas próximas. A polícia ainda tenta determinar a origem do metanol utilizado nas adulterações. Segundo os investigadores, essa etapa da apuração continua em andamento. 'Era um bar em uma região nobre, não boteco de esquina', diz mulher que ficou cega após ingerir metanol Um ano após crise do metanol, investigação revela cadeia de falsificação Reprodução/TV Globo Ligações com bares investigados As investigações também alcançaram estabelecimentos onde vítimas consumiram bebidas adulteradas. Em um dos casos, movimentações financeiras ajudaram a polícia a identificar a adega que vendeu uma bebida contaminada consumida por Rafael Martins, que morreu após ingerir gim com metanol. Gilmar Silva aparece novamente como elo entre os envolvidos. O nome dele também surgiu na apuração relacionada ao Bar Ministrão, nos Jardins, onde Radharani consumiu as três caipirinhas antes de ser internada. Segundo a polícia, dados bancários mostram transferências via Pix entre Gilmar e o estabelecimento. Em depoimento, ele afirmou que fornecia bebidas ao bar havia três anos e que negociava diretamente com o proprietário. A direção do bar informou que aguardará a conclusão das investigações para se manifestar. As defesas dos demais citados apresentaram versões ou não responderam aos contatos da reportagem. Sobreviventes tentam recomeçar Além das mortes, a crise deixou pessoas com sequelas permanentes. O ex-garçom Cláudio Crespi perdeu a visão após consumir vodca em um bar de Guarulhos que, segundo a investigação, também comprava bebidas de Gilmar Silva. Ele ficou nove dias em coma e hoje enfrenta um processo de reabilitação. "Eu tenho que aprender tudo de novo. Eu tive que aprender a ler, eu tive que aprender a andar, eu tive que aprender a falar", afirmou. Segundo a polícia, Gilmar Silva, Pedro Lagar e Fagne da Silva Santos, dono do Bar Ministrão, devem ser indiciados nos próximos dias. Enquanto aguardam os desdobramentos judiciais, vítimas como Radharani defendem punições exemplares e mais responsabilidade dos estabelecimentos na compra e venda de bebidas. "Que a punição aconteça, o crime não pode compensar, e os estabelecimentos se responsabilizem também pelo que eles estão comprando e revendendo para os consumidores". Para os sobreviventes, a esperança agora se divide entre o avanço das investigações e a busca por tratamentos para os danos causados pela intoxicação. "Eu posso ter muita dúvida em relação à Justiça, mas na medicina, eu tenho muita esperança", concluiu Radharani. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.

FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/09/13/um-ano-apos-crise-do-metanol-investigacao-revela-cadeia-de-falsificacao-e-vitimas-convivem-com-sequelas.ghtml


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